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    Você nunca vai falar duas vezes com a mesma pessoa. Andar de novo pela mesma calçada. Sorrir do mesmo jeito outra vez. Os motivos serão outros. Os cenários serão outros. Outros. 1, 2, 3. Outros. 4, 5, 6. Outros. Novos impulsos. Novas células. Novos sonhos. Alguém trocou os livros da sua prateleira, e você nem percebeu. Alguém trocou o cara no seu espelho, e você nem percebeu. Alguém trocou o mundo na sua janela, e você nem percebeu. Vai lá ver.

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    Um dia, meu amor, você vai ver o mundo com dois olhões castanhos curiosos. Vai me perguntar por que o céu é azul de manhã, e se depois ele vai ficando vermelho só pra receber a lua. Vai olhar as flores e tentar entender porque elas morrem quando a gente as leva para passear por aí. Vai descobrir que o homem já saiu da Terra, mas ainda não conseguiu chegar ao fundo mais fundo do mar. Nem do coração. Vai ter dor de dente. Vai ouvir que somos todos iguais, e me perguntar por que aquele moço ali tá com fome e você não. Vai dar cambalhota. E ficar dando cambalhota sem parar. Vai pedir, meio inseguro, pra entrar no mar.

    Um dia, meu amor, você vai ter uns olhos grandões que vão devorar o mundo. Mas hoje, você é sol. Um pouquinho de chuva. Abraço. Sorriso. Vento. Flor. Você é, mesmo longe de ser, cada coisa que me faz continuar

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    Daí você pára uns minutos no meio da tarde. Inspira. Expira. De novo. Abre espaço lá dentro, como quem prepara a casa pra receber os amigos. Como quem coloca o lixo na calçada, com calma. Levanta. Olha pela janela. O céu ri da cidade alucinada lá embaixo, e você, como quem acabou de descobrir um segredo, ri junto. Põe a cara pra fora, só pra sentir o vento que varre o mundo. Come uma maçã verde. Relê A Tabacaria. Olha pela janela e, sem esperar uma resposta, se pergunta se foi só a luz que mudou. Você mudou. Você mudou. Você mudou. De novo. E aí bate aquela vontade DOIDA, INCONTROLÁVEL, DE DEVORAR O MUNDO INTEIRO NUM SEGUNDO SÓ. De dentro para fora. Ainda quente. Ainda vivo. Lamber os beiços. Lamber os dedos, e, ainda assim, dormir com fome.

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  • 0 comments text Debaixo da mesa

    Filho único acaba entrando desde cedo na desgraça da solitude. Tem que se virar. Você não aprende a conversar com muita gente da sua idade, é sempre aquele papo louco dos adultos rolando na mesa de jantar enquanto você se esconde embaixo da toalha, olhando os sapatos e tentando adivinhar qual é de quem. O vovô está falando algo sobre sua infância na Ilha da Madeira, as festas religiosas, as pedras da praia, e você imagina ele pequenininho - mas com a mesma cara enrugada e a mesma careca reluzente - correndo pelas ruelinhas portuguesas usando os sapatos cor-de-rosa da tia Maria. Que estranho, acho que esses não são dele! Do outro lado da mesa, a real dona dos sapatos solta um suspiro de saudade e comenta algo sobre as flores murchas na janela. Agora ela usa sapatos sociais, bem engraxados, uns quatro ou cinco números maiores que seus pés. Olho bem para eles e meu cérebro infantil conclui que ela também deve estar usando algum tipo de boina de inverno para combinar. Tento espiar seu rosto pelo vidro da mesa. Aperto os olhos - a toalha é fina e a luz é forte - mas tudo o que eu vejo são fundos de taças de vinho. Olho para o resto da mesa, são vários. Vários discos sambando naquele meu céu particular, subindo e descendo o tempo todo, cada vez mais sem cor. Engraçado. Invasão alienígena. Esqueço os sapatos e as boinas e fico esperando por raios verdes e monstros cheios de dentes a qualquer momento. Minhas armas, uns pedaços de giz de cera, em punho. Mas passa um tempo e não vem nenhum raio. Nenhum monstro. Nenhum mísero dentinho. Ouso olhar para cima: os discos se acalmaram e estão quase todos transparentes. Percebo minha tolice e dou uma risadinha leve, de filha única, que só eu ouço (porque não tem mesmo mais ninguém para ouvir). Quase ao mesmo tempo, lá em cima da mesa, todo mundo solta uma baita gargalhada lambuzada de vinho e cheia de dentes, como as boas gargalhadas devem ser. Eu, na minha penumbra subterrânea de pernas, entendo tudo: os monstros não vieram porque nós somos os monstros. Nós temos os dentes. Ensaio uma mordidinha e bato os de cima nos de baixo, só para garantir que estão lá, e adormeço em paz. 

  • 0 comments text Fomefomefomefome

    Tem muito mundo lá fora. Os pés inquietos, alucinados, como criança que quer correr pra fila do sorvete e se lambuzar. A gente se lambuza o tempo todo, pensou. E os pés iam escolhendo as folhas mais macias. A gente é um aglomerado de lambuzado delicioso, um tecão de lambuzado de tudo que a gente já devorou até aqui. E os pés sorriam quando encontravam uma folha mais molhada. E dançavam. E se lambuzavam de relva. A gente passa a vida com fome. Uma fome insaciável de nãoseioquê. Uma fome que nunca passa. Essa vontade de comer o mundo, já sentiu? Nunca passa. Botou a mão na lama e comeu um pedaço de planeta. Tanto faz. Um dia, você sabe, a lama vai comer um pedaço de você.

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    The Atomic Fireballs, Lover Lies. Teor alcoólico 40%. Ouça isso por um dia inteiro e fique eternamente entorpecido.

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    (Source: millionaireblues)

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  • 0 comments photo Nasci numa família de pessoas sedentas por letrinhas, e meu pai é uma delas. Outro dia descobri que ele tem um blog (pois é!) onde posta suas poesias, e fiquei lá, me deliciando a madrugada inteira, descobrindo novos pontos de vista de uma das pessoas que mais amo na vida.
Enfim, se hoje eu escrevo aqui, a culpa é dele.Te amo, pai! 

    Nasci numa família de pessoas sedentas por letrinhas, e meu pai é uma delas. Outro dia descobri que ele tem um blog (pois é!) onde posta suas poesias, e fiquei lá, me deliciando a madrugada inteira, descobrindo novos pontos de vista de uma das pessoas que mais amo na vida.

    Enfim, se hoje eu escrevo aqui, a culpa é dele.
    Te amo, pai! 

  • 0 comments photo A meu modo, voei.

    A meu modo, voei.

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    Por aí afirmam de boca cheia que nunca inventaram a máquina do tempo.
    Que é impossível.
    Que é maluquice.
    Que não passa de um sonho infantil.

    Certo.

    E eu pergunto a vocês, sóbrios e lúcidos: o que é a música?

  • 0 comments text Wizard Smoke

    Vídeo inspirador filmado com três Panasonic HVX200s + 35mm adaptors e Nikon Primes. Pura poesia.


    Wizard Smoke from Salazar on Vimeo.


    Um beijo, um cafuné e boa noite a todos.

    #skateboarding #colors #vimeo #magic 
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By Peter Vidani
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